Da mortandade dos caranguejos à consolidação como modelo de gestão comunitária, a reserva extrativista de Canavieiras reafirma o papel das populações tradicionais na preservação dos manguezais e na economia local.
20 ANOS EM RESUMO
No próximo dia 5 de junho, Canavieiras celebra os 20 anos da criação da Reserva Extrativista (Resex), um marco histórico que transformou a relação das comunidades com os manguezais e devolveu ao município o título de “Capital Nacional do Caranguejo”.
O estopim: a mortandade dos caranguejos
No final dos anos 1990, mulheres da comunidade da Birindiba, lideradas por Vilma Xavier, organizaram a Associação das Catadoras de Caranguejo. A iniciativa surgiu em meio a uma crise sem precedentes: uma grande mortandade de caranguejos assolava os manguezais da região.
O fenômeno teve seu auge em 2002, quando a mortandade ganhou repercussão nacional, sendo noticiada em todos os principais veículos de comunicação. O medo tomou conta da comunidade, que não sabia explicar o que estava acontecendo. Para as catadoras, ficou claro que era preciso pensar em formas de proteger o manguezal e garantir a sobrevivência da espécie.
20 anos depois Resex Canavieiras
Hoje, a Resex Canavieiras é referência em preservação dos manguezais e valorização da cultura extrativista. Mais do que uma unidade de conservação, ela representa:
- A força da organização comunitária, que uniu pescadores, marisqueiras e catadores em torno de um objetivo comum.
- A defesa do território, garantindo que o mar e a terra sejam utilizados de forma sustentável.
- A vitória da luta popular, que transformou a realidade de Canavieiras e inspirou outras comunidades.
20 ANOS DE RESISTÊNCIA
Logo no início da criação, muito se falou sobre a Resex. Havia quem afirmasse que a unidade iria “proibir o desenvolvimento da cidade”, impedindo a instalação de parques ecológicos, resorts e hotéis. No entanto, ao longo dos 20 anos se provou que essas especulações nunca passaram de discursos de uma ala da sociedade contrária à organização, que buscava dominar a entidade. Nenhuma dessas proibições ocorreu, pois até hoje nunca existiu qualquer empreendimento semelhante. A gestão da Resex é participativa, envolvendo todas as organizações comunitárias, e jamais impediu o desenvolvimento da cidade.
Vale destacar que menos de 5% do território da Resex é terrestre, composto basicamente por manguezais e pequenas áreas em torno deles, como os povoados de Atalaia, Capinhos e Barra Velha. O restante da área é marinha — oceano e mar aberto —, onde naturalmente não se instalam empreendimentos. Assim, a cidade de Canavieiras, com mais de 95% de seu território fora da área da Resex, sempre esteve disponível para qualquer tipo de empreendimento.
Além disso, a Resex é garantia de desenvolvimento sustentável. Mais do que preservar o maretório, trouxe investimentos significativos para Canavieiras e região, incluindo lutas sociais, moradia e direitos que jamais haviam sido vistos ou sonhados pelas comunidades tradicionais. Todos os investimentos foram aplicados integralmente na cidade de Canavieiras e nos municípios que fazem parte da Resex, como Una e Belmonte, fazendo circular a economia local. Diferentemente até de órgãos públicos, que muitas vezes destinam parte de seus recursos fora do município, a Resex garantiu que os benefícios permanecessem na região.
Símbolo de resistência e esperança
A Resex Canavieiras é, hoje, símbolo de resistência, preservação, esperança e desenvolvimento sustentável, responsável por devolver ao caranguejo seu lugar de honra nos manguezais e na identidade da cidade. Em 5 de junho de 2026, Canavieiras celebra não apenas um aniversário, mas a vitória da união popular em defesa da vida e da natureza.


